[Abajo hay una traducción]

por Bruna Dalmaso Junqueira *

Uma brasileira engravida. Não foi planejado ou desejado; por razão qualquer que seja, ela não quer ser mãe. Porque entende de sua vida, porque reconhece sua realidade, entende o aborto como a decisão mais apropriada. Decide e para. Decide e é parada: uma brasileira não pode abortar. O Código Penal brasileiro, vigente desde 1940, classifica o aborto como um crime contra a vida humana. Exceto em casos de estupro, de anencefalia do feto ou de risco de vida da mãe, uma mulher não tem respaldo de seu Estado para interromper uma gravidez que não deseja. O corpo é seu, a realidade é sua, a decisão não: as regras lhe escapam.

A contestação às condições patriarcais da sociedade brasileira já garantiu às mulheres algumas independências. Em verdade, o feminismo – como movimento social ou filosófico – assegurou conquistas valorosas para as mulheres das classes média e alta (àquelas que se encontram na periferia social, a sociedade ainda deve muito em relação à tomada de espaço e independência). A submissão que lhes cabia em um passado recente já perdeu lugar para que se expressem abertamente, para que possam ser ouvidas e ter crédito dado a isso. A dependência — financeira ou emocional — dos homens já não lhes é mais obrigatória. São todos êxitos visíveis historicamente mas que, justamente por terem sido feitos em território sexista, em um mundo de homens, acabam por exigir certa “vigilância”.

Ainda lutam por igualdade salarial. Ainda lutam por mais respeito; pelo fim do medo e da força física como “argumento” válido. As mulheres ainda lutam, veja-se, pelo direito de tomarem decisões que somente a elas cabem. Nesse ponto encontra-se uma mulher, no século XXI, proibida de decidir sobre sua vida porque seu Estado carrega um machismo datado em sua lei.

Note-se que a proibição não as impede. As brasileiras abortam. Por vezes, a custo de vida. As condições do aborto clandestino são, frequentemente, precárias. São isentas de garantias ou seguros médicos. Não está aí posta a ironia de uma lei que serviria para proteger a vida mas que, enfim, mata?

Rio de Janeiro, 2013
Rio de Janeiro, 2013

Em 1971, na segunda onda do movimento feminista, as francesas militavam pela liberação do aborto. Simone de Beauvoir e seu Deuxième sexe (Paris: Gallimard, 1949) formalizaram a ideia de que a maternidade deveria ser uma escolha e não uma obrigação. A sociedade viu a luta das mulheres, ouviu suas manifestações e, em 1975, veio a resposta legal, a descriminalização. Hoje, 2013, tramita no Senado Federal brasileiro uma proposta de lei que garantiria o aborto seguro e legal pelo Estado para gravidezes de até 12 semanas. Movimentos sociais e juristas lideram a luta ao passo que a resistência conservadora se põe firme. Argumentam que as mulheres têm autonomia e informação para que a concepção seja evitada e, com ela, a ‘errada’ decisão de abortar.

Os ditos “pró-vida” parecem ignorar, no entanto, que a questão não se centra absolutamente em tomadas de posição — ser contra ou a favor do aborto. Não. Essa é uma decisão pessoal, que envolve crenças e valores independentes de consensos sociais ou legislações. A escolha é definitivamente individual e deveria independer da opinião — do julgamento — social. Além disso, dizer que as mulheres são suficientemente informadas para evitar que engravidem não é argumento que caiba, uma vez que a descriminalização do aborto tem de, necessariamente, vir acompanhada de uma campanha de informação garantida pelo Estado. Tem-se o exemplo nos países em que a interrupção da gravidez não é ilegal. Quando acolhidas e informadas por seu governo sobre todas as suas opções, quando empoderadas com a escolha, muitas mulheres decidem por não abortar. A mudança na legislação brasileira, por óbvio que pareça afirmar, não há de obrigar mulher alguma a interromper sua gravidez.

É da História que acontecimentos socialmente semelhantes se deem em pontos diferentes do tempo. É da História que exemplos sejam seguidos na evolução da sociedade. Há quase meio século, a França dava um extenso passo no empoderamento das mulheres com a descriminalização do aborto. Hoje marcham também as brasileiras para que sejam ouvidas. Buscam seu espaço na História as brasileiras para que lhes seja assegurado o direito humano de ter controle de seu corpo e de suas decisões.

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Una lucha histórica por la decisión

por Bruna Dalmaso Junqueira *

Una brasileña embarazada. Su embarazo no fue planeado o deseado; por cualquier razón, ella no quiere ser madre. Porque entiende de su vida, porque reconoce su realidad, entiende el aborto como la decisión más apropiada. Decide, y para. Decide, y es parada: una brasileña no puede abortar. El código penal brasileño, vigente desde 1940, clasifica el aborto como un crimen contra la vida humana, excepto en casos de estupro, de anencefalia del feto o si la vida de la madre corre algún riesgo. Una mujer no tiene respaldo de su estado para interrumpir un embarazo que no desea. El cuerpo es suyo, la realidad es suya, no la decisión: las reglas se le escapan.

La contestación de las condiciones patriarcales de la sociedad brasileña ya garantizó a las mujeres algunas independencias. Es verdad que el feminismo —como movimiento social o filosófico— aseguró conquistas valiosas para las mujeres de las clases media y alta (a aquéllas que se encuentran en la periferia social, la sociedad aún les debe mucho en relación a la toma de espacio e independencia). La sumisión que les competía en un pasado reciente ya perdió lugar para que se expresen abiertamente, para que puedan ser oídas y tener el crédito dado a eso. La dependencia de los hombres —financiera o emocional— ya no les es obligatoria. Son todos éxitos visibles históricamente pero que, justamente por haber sido hechos en territorio sexista, en un mundo de hombres, acaban por exigir cierta “vigilancia”.

Aún luchan por igualdad salarial. Aún luchan por más respeto; por el fin del miedo y de  la fuerza física como “argumento”” válido. Las mujeres aún luchan por el derecho de tomar decisiones que les corresponden. En ese punto encontramos a una mujer, en pleno siglo XXI, prohibida de decidir sobre su vida porque su estado lleva consigo un machismo registrado un su ley.

Nótese que la prohibición no las impide. Las brasileñas abortan; a veces a costa de su propia vida. Las condiciones de aborto clandestino son, frecuentemente, precarias. Están exentas de garantías o seguros médicos. ¿No está ahí puesta la ironía de una ley que serviría para proteger la vida, pero que, finalmente, mata?

Rio de Janeiro, 2013
Rio de Janeiro, 2013

En 1971, en la segunda onda del movimiento feminista, las francesas militaban por la liberación del aborto. Simone de Beauvoir, en su Deuxième sexe (Paris: Gallimard, 1949), formaliza la idea de que la maternidad debería ser una decisión y no una obligación. La sociedad vio la lucha de las mujeres, escuchó sus manifestaciones y, en 1975, vio la respuesta legal, la despenalización. Hoy, 2013, tramita en el senado federal brasileño una propuesta de ley que garantizaría el aborto seguro y legal por el estado para embarazos de hasta 12 semanas. Movimientos sociales y juristas dirigen la lucha al paso que las resistencia conservadora se pone firme. Argumentan que las mujeres tienen autonomía e información para que la concepción sea evitada y, con ella, la errada decisión de abortar.

Aquellos que se dicen “pro-vida”, parecen ignorar, sin embargo, que la cuestión no se centra en absoluto en las tomas de posición —estar en contra o a favor del aborto. No. Esa es una decisión personal que involucra creencias y valores independientes de los consensos sociales o la legislación. La decisión es definitivamente individual y no debiera depender de la opinión (del juicio) social. Además de eso, decir que las mujeres están suficientemente informadas para evitar un embarazo no cabe dentro del argumento: la despenalización del aborto, necesariamente, se acompaña de una campaña de información garantizada por el estado. Tómese por  ejemplo los países en los que la interrupción del embarazo no es ilegal. Cuando las mujeres son acogidas e informadas por su gobierno sobre todas sus opciones, y cuando ya empoderadas con la decisión, muchas deciden por no abortar. El cambio en la legislación brasileña, por más obvio que parezca, no obliga mujer alguna a interrumpir su embarazo.

Es propio de la historia que los acontecimientos socialmente semejantes se den en puntos diferentes del tiempo. Es (propio) de la historia que los ejemplos sean seguidos en la evolución social/de la sociedad. Hace casi medio siglo, Francia daba un enorme paso hacia el empoderamiento de las mujeres con la descriminalización del aborto. Hoy marchan también las brasileñas para que sean oídas. Buscan su espacio en la historia para que les sea asegurado el derecho humano de tener el control de su cuerpo y de sus decisiones.

[Traducción de David F. Uriegas]

[Revisión de Júlia Conterno Rodrigues.]

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